Saturday, 15 January 2011

CARLSO CASTRO: VIDA DE EMOÇÕES FORTES


Apesar do reconhecimento que obteve, Carlos Castro era descrito pelos amigos como uma pessoa simples. Aos 65 anos, o cronista social gostava de passar despercebido na rua, preferia estar em casa de pantufas do que nas badaladas festas do social e era capaz de passar horas só a brincar com a gata, Romy, que lhe tinha sido oferecida há um ano.

"Nos últimos tempos, só ia a algumas festas e porque tinha de fazer crónicas de social, que eram o seu sustento. Dizia que estava farto de ver sempre as mesmas pessoas e que preferia estar em casa, a ler o seu livro, ou num jantar caseiro com amigos. Fazia uma boa feijoada e um óptimo arroz de pato. Cozinhava muito bem e gostava de receber", começa por contar o amigo de há vários anos, Eládio Clímaco.


Preocupado com a saúde, o homem que foi brutalmente assassinado por Renato Seabra, de 21 anos, em Nova Iorque, temia que uma doença grave o matasse e, atento às oscilações da balança, não se deixava levar por refeições calóricas. "Gostava muito de salmão, por exemplo, mas não era um gourmet. Aliás, o Carlos estava sempre em dieta e até quando ia a alguns dos seus restaurantes favoritos, como a Bica do Sapato ou o Alcântara Café, era mais para ver gente bonita do que para comer bem. Adorava caipirinha, mas raramente bebia, por questões de saúde. "

"Tinha muito medo de adoecer"
, revela uma das suas melhores amigas, Lili Caneças, enquanto o jornalista e escritor Guilherme de Melo garante mesmo que Carlos Castro tinha a mania das doenças: "Era hipocondríaco. Telefonava-me muitas vezes a pedir-me conselhos de saúde, que estava com a tensão alta e não sabia o que havia de fazer." Problemas acentuados à medida que, por circunstâncias da vida, o cronista foi perdendo alguns dos amigos mais chegados.

Nos últimos tempos, contam, os problemas de saúde tinham sido temporariamente esquecidos em prol da paixão. Desde que tinha conhecido Renato Seabra que Carlos não escondia o brilho no olhar e, aos mais chegados, confessava-se profundamente apaixonado pelo jovem que haveria de o matar.

"Neste Natal, disse-me que tinha encontrado a alma gémea, a outra metade da laranja. Eu alertei-o para ter cuidado, porque havia pessoas que se aproximavam dele por interesse e lhe davam a entender que sentiam coisas que não eram verdade, mas ele disse-me que o Renato era de boas famílias, que o adorava e lhe mandava mensagens carinhosas. E eu calei-me", acrescenta o jornalista.

VIDA DE LUXO

Aos 65 anos, Carlos Castro conquistou um estilo de vida que nunca tinha imaginado quando, ainda miúdo, era maltratado pelo pai e vivia no limiar da pobreza, em Angola, juntamente com os seus seis irmãos. No início da década de 90, chegava a ganhar até cerca de dez mil euros por cada desfile que organizava, rendimentos que lhe permitiram comprar um T1 nas Amoreiras por 250 mil euros, que vendeu posteriormente.

Actualmente, o cronista vivia num luxuoso apartamento arrendado nas Twin Towers, em Lisboa, viajava pelo Mundo, onde tinha acesso aos espectáculos mais caros, e tinha conseguido o reconhecimento de figuras de topo da nossa sociedade, muitas delas que ajudou a lançar. A primeira entrevista de Judite de Sousa foi dada a Carlos Castro e, segundo conta Lili Caneças, muitas outras figuras se tornaram conhecidas pela sua mão, inclusivamente ela própria.

"O Carlos ajudou muita gente e nunca pediu nada em troca. A Marisa Cruz, a Carla Caldeira, os Excesso e eu própria fomos pessoas que ele ajudou a lançar", diz, numa lista à qual Guilherme de Melo junta ainda mais nomes: "A Maya. E há uma série de modelos que ele ajudou na carreira."

Com um grupo de amigos enorme, nenhuma figura do social ficava indiferente ao cronista, especialmente quando a língua afiada de Carlos Castro os visava com algumas críticas. Com ódios de estimação, chegou a zangar-se com Bárbara Guimarães e Cláudio Ramos, mas a verdade é que os tempos de cólera acabavam por não durar mais do que algumas semanas. No final, fazia quase sempre as pazes com os visados e, no caso da apresentadora da SIC, da desavença, os dois acabaram mesmo por construir uma sólida amizade.

HOMEM GENEROSO

Carlos Castro nunca esquecia os amigos mais chegados e, em alturas simbólicas como o Natal, juntava em sua casa todos aqueles que, já sem família, estavam destinados a passar a quadra sozinhos. "Ele era extremamente generoso e solidário. Há três anos, quando a minha irmã faleceu, o Carlos disse-me que, a partir dessa altura, passaria sempre o Natal em sua casa, pois ele e as irmãs seriam a minha família. E fez o mesmo com o Victor de Sousa, quando no ano passado este perdeu a mãe", adianta Guilherme de Melo.

Mas os gestos nobres não se ficam por aqui. Quando convidava, era sempre ele quem pagava o jantar, e no dia em que a cantora Lena d’Água lhe confessou, através do Facebook, que o regresso aos palcos a ia ajudar a dar uma reforma ao velho fogão, Carlos não perdeu tempo. "No dia do meu aniversário, recebi em casa um novo, oferecido por ele", confessa a cantora.

Mas o cronista era também um homem que gostava de se mimar. Vaidoso assumido, chegou a fazer um lifting à pele e perguntava frequentemente aos amigos se determinada peça de roupa lhe ficava bem. Apaixonado pela criação, não faltava a uma edição da Moda Lisboa, mas na altura de comprar mostrava-se bem mais conservador. "Ele adorava camisas aos quadrados e, se via uma de que gostasse, era capaz de comprar logo quatro iguais, assim como calças", recorda Eládio Clímaco.

15-01-2011

http://www.vidas.xl.pt/noticia.aspx?channelId=83c1118f-0a09-426d-88d0-7a0980df951a&contentId=95c3aad4-424a-42ae-8351-fd23421a5aec

RENATO SEABRA RECEBE JORNALISTAS DE SORRISO RASGADO


Carlos Castro: Procuradora fala em morte brutal

Maxine Rosenthal é a procuradora que tem a seu cargo a acusação do estado de Nova Iorque contra Renato Seabra

Renato Seabra recebeu os jornalistas de sorriso rasgado, a partir do sofá no Bellevue Hospital, mal o juiz Ferrara proibiu fotos da videoconferência. Entretanto, as perícias médico-legais provam que o jovem modelo esteve quatro horas no quarto do hotel com o cadáver de Carlos Castro.

GUILHERME DE MELO FALA DE CARLOS CASTRO


"Carlos Castro sabia que o Renato não era homossexual"

Guilherme de Melo, escritor e jornalista, diz ao i que nas paixões de Carlos Castro tinha de haver um toque de heterossexualidade

Guilherme de Melo, prestes a completar 80 anos, fotografado em sua casa, no Príncipe Real. O jornalista foi o primeiro homossexual a assumir-se publicamente em Portugal
Foto Sandra Rocha
Conheceu Carlos Castro pouco depois de chegar a Portugal, em 1975. O primeiro homem a assumir publicamente a sua homossexualidade foi também um dos melhores amigos do cronista assassinado há uma semana. Em entrevista ao i, Guilherme de Melo recorda os anos de amizade com Carlos Castro e a última vez que estiveram juntos. Foi na noite de Natal, altura em que o amigo lhe confidenciou a paixão que estava a viver com Renato Seabra. À saída de casa, três anos depois de ter sofrido um AVC, e prestes a completar 80 anos, abraçou-se ao amigo e disse-lhe entre lágrimas: "Este é o último Natal que passamos juntos". Tinha razão: Carlos Castro morreu dias depois.

Como soube da morte do seu amigo?

Eram sete da manhã de sábado. O meu telefone não parava de tocar, coisa estranha àquela hora da madrugada. Levantei-me e atendi. Era a dona Fátima, a senhora do snack-bar aqui ao pé de casa, que costumo frequentar. Disse-me que sabia que eu tinha passado o Natal na casa do Carlos Castro e perguntou-me se tinha corrido bem. Aquela conversa fez-me confusão, sobretudo pela hora. Perguntei-lhe directamente o que se estava a passar e foi quando ela me disse que tinha uma notícia trágica para me dar. "Acabei de ouvir agora mesmo que o seu amigo foi assassinado." Não sei como não me deu uma coisa.

Sabia que eles iam juntos para Nova Iorque?

Sim, eles iam embarcar daí a cinco dias. Éramos muito amigos, passo o Natal na casa dele desde que a minha irmã morreu, há três anos. O Carlos fazia isso com todos os amigos próximos que estavam sozinhos. Nessa noite falou-me imenso do Renato, estava muito bem-disposto. Desde Outubro que ele andava numa euforia muito grande e eu até esperava conhecê-lo nessa noite, mas ele tinha ido passar o Natal com a família, em Cantanhede.

O que lhe contou?

Dizia-me que tinha encontrado o companheiro para o resto da vida. A expressão que ele usou foi: "Encontrei a minha alma gémea, como dizem os brasileiros, a metade da laranja".

Alguma vez o ouviu falar assim?

Não. Pareceu-me diferente. O Carlos teve uma grande paixão na vida, um companheiro com quem viveu 15 anos. Mas nunca se apaixonou por rapazes que fossem genuinamente homossexuais. Nas suas paixões tinha de haver sempre uma componente muito máscula e viril, um toque de heterossexualidade, caso contrário desinteressava-se. Já me chegaram a perguntar se fomos amantes. Nós? (risos) Tive imensas aventuras, mas com ele era impossível. Éramos os dois verdadeiramente homossexuais, quando alguém insinuava qualquer coisa desse género, costumávamos dizer: "Lésbicas não somos, somos gays".

Ou seja, o Renato não era homossexual.

Ele era a tal componente heterossexual, e este caso não foi diferente de outros que o Carlos teve: sabia que o Renato tinha namorada mas ignorava isso. Achava que o facto de ter uma mulher era uma forma de atirar poeira para os olhos. Queria muito que ele fosse homossexual. O Carlos era uma pessoa complicada.
Acha que ele estava ciente da sua orientação sexual?

Ele sabia que o rapaz não era homossexual e que nunca tinha tido uma experiência do género. Tinha a certeza disso. Sem ser muito efeminado, em termos sexuais o Carlos era uma mulher. O rapaz, sendo heterossexual, jogou com ele. Era o homem, o elemento activo, e isso não afectaria a sua masculinidade. Eu sempre lhe disse que aquilo não tinha pernas para andar e que o melhor era aproveitar enquanto durasse. Mas isso não lhe chegava. "O rapaz passa a vida a dizer que me adora, acho que isto é para o resto da vida", dizia-me ele. "Tens de o conhecer." E fartava-se de receber mensagens dele.

Leu alguma?

Sim, ele mostrou-me algumas na noite de Natal: "Já tomaste o teu leitinho? Reparei agora nas horas, mediste a tensão? Sei que estou a ser chato, mas sabes que te adoro". E o Carlos acreditava em tudo isso. Quando está apaixonado, deixa-se deslumbrar. Mas eu achava que a única coisa que ele via no Carlos era a oportunidade, o protagonismo, a carreira, alguém que lhe podia abrir as portas.

Avisou-o disso?

Não foi a primeira vez que isto aconteceu. O Carlos ajudou muita gente ligada à moda, muitos destes manequins famosos começaram pela mão dele. Mas, neste caso, entrou a paixão. Ao contrário do que as pessoas pensam, ele não era de se apaixonar facilmente, nem promíscuo. Não era o tipo de pessoa que conhece alguém e que vai imediatamente para a cama. Era um sonhador, um fantasista. E quando se apaixonava vivia obcecado. Era de uma fidelidade e entrega totais. Eu sempre vivi a minha homossexualidade de forma aberta, tive um companheiro durante 28 anos, mas gostava muito de ter as minhas aventuras. Nunca misturei sentimentos de amor com putice. O Carlos não, quando estava apaixonado vivia só para aquela pessoa. Mas era extremamente possessivo quando amava. E muito ciumento.

Dá a sensação de que este romance tem uma componente psicológica muito forte.

O facto de o Carlos ser muito ciumento fazia com que se descontrolasse. Ele criava fantasias: quando percebia que a paixão não era correspondida, entrava em depressão, pensava em suicídio. Era uma pessoa de extremos. Houve uma violência psicológica muito forte de ambos.

Mas daí a haver um crime destes vai um passo de gigante.

Acho que o rapaz usou o corpo que tinha, a virilidade e, sobretudo, o que tinha entre as pernas. Quando o Carlos o viu trocar contactos com umas raparigas no hall do hotel, fez uma cena de ciúmes enorme. Por outro lado, o rapaz, que tinha sido acólito em Cantanhede, tinha a cabeça cheia de preconceitos. A discussão que tiveram no restaurante - que levou alguns clientes a queixarem-se à gerência - fez com que o Renato caísse em si: passou a ver no Carlos o objecto do seu ódio, daí a tortura a que o submeteu, para o livrar dos "demónios". Acho que foi nessa altura que percebeu que se tinha envolvido, e que não havia forma de voltar atrás.

O Carlos sempre se envolveu com pessoas mais novas. Porquê?

Um dos factores mais importantes para ele era a beleza. E, meu querido amigo, só se é belo e deslumbrante entre os 20 e os 30 anos. A partir daí, temos de começar a defender-nos. O Carlos nunca foi de se ligar a adolescentes... Não. As grandes paixões dele foram todas entre os 20 e os 25 anos. Daí para frente...

Desinteressava-se?

Sim... quer dizer, não se desinteressava. É que nem sequer se interessava. Ele teve uma ligação grande com um rapaz, durante 15 anos. Quando o conheceu, ele tinha 23 anos, tinha acabado de sair da Marinha, era fuzileiro e um excelente fotógrafo. O Carlos nessa altura tinha uma página semanal sobre espectáculos no Correio da Manhã e o rapaz, que tinha muita apetência para a fotografia artística, procurou-o. Ligou-lhe e contou que tinha saído da tropa, que era fotógrafo e gostava muito de conversar com ele porque sabia que tinha uma página no CM. Combinaram um encontro, foram almoçar e dá-se o clic. O Carlos teve uma paixão assolapada por ele e seis meses depois, já com o rapaz a trabalhar no CM, estavam metidos na cama. Era heterossexual, mas encarou aquilo com a maior das naturalidades.

O Carlos sabia disso?

Chegou a desconfiar que ele andava com mulheres e fazia imensas cenas de ciúme. Estiveram juntos durante 15 anos, até o rapaz se apaixonar por uma mulher e decidir casar com ela. O Carlos engoliu e ainda foi padrinho de baptismo da filha deles. E a rapariga de olhinhos tapados. Porque a gente só vê aquilo que quer ver. Esta é a verdade. O Carlos ia com ele para Nova Iorque, ia com ele quando era a eleição da Miss Universo e continuavam a trabalhar juntos. Mas, pronto, para todos os efeitos iam só em serviço. Era o que o Luís dizia. Mas ele andava a fazer uma vida dupla. E é claro que todos nós sabíamos.

Como foi o desfecho da história?

Houve alguém que disse à rapariga: "Olha lá, tu andas a dormir na forma." "Ai, não - dizia ela - eles não têm nada entre eles. São só amigos. O Carlos é como um pai para o Luís." Mas os avisos continuavam a chegar e ela continuava a negar até ao dia em que alguém lhe disse: "Olha que se eles não são amantes, toda a gente pensa que são". Foi então que a rapariga o pôs entre a espada e a parede e fez um ultimato ao marido. O Luís cortou então com o Carlos, saiu do jornalismo, deixou tudo e foi-se embora.

E o Carlos, como ficou no meio disso tudo?

Aquilo foi muito mau para ele. Tentou suicidar-se. Entrou numa depressão terrível. Foi muito dado às depressões, além de ser extremamente hipocondríaco. Era capaz de me telefonar às três da manhã assustado com qualquer coisa que sentia na cabeça ou porque tinha a tensão muito alta. "Não é melhor virem buscar-me?" E eu dizia: "Ó homem, tem calma". Mas ele começava logo a pensar que ia morrer. Tinha sempre a mania da morte. Quando se mudou das Amoreiras, onde tinha um apartamento há uma data de anos, e foi para o 22º andar das Twin Towers deu uma festinha. Nessa altura, disse-lhe : "Eu não morava aqui, tão alto, com os aviões mesmo aqui ao pé. Que mania que tu tens das alturas, já nas Amoreiras vivias no último andar." E ele respondeu: "Assim é melhor. Quando eu me decidir, é só abrir a janela e atirar-me."Ele tinha a mania do suicídio.

Alguma vez tentou suicidar-se?

Ele tinha uma obsessão pela morte. Sobretudo quando ficava destroçado por causa de um amor. Numa altura, tomou uma série de comprimidos e só não morreu porque a Rute Bryden, um travesti muito conhecido que morreu com SIDA, o levou ao hospital.

Pelo que diz, o Carlos parecia ser uma pessoa muito instável emocionalmente, alguém que se deixa à mercê dos amores, para o bem e para o mal.

Isso aconteceu neste romance com o Renato. Não adiantava pedir-lhe calma. Quando acabou a gala dos travestis, no passado dia 1 de Dezembro, no São Luís, o público chamou por ele, que decidiu fazer ali uma declaração: "Esta foi a gala mais feliz da minha vida, porque estou a passar um momento único. Encontrei finalmente a minha alma gémea, o meu companheiro para a vida inteira". Eu só lhe disse: "Tu crias um mundo imaginário à tua volta e depois eu sei como é o fim disto tudo, entras em depressão, queres morrer e fazes a nossa vida um inferno". Mas ele não ligou, dizia que desta vez não ia ser assim, porque o Renato o adorava. E eu virei-me para o Cláudio Montez e ambos encolhemos os ombros.

Nestas alturas, ele nunca lhe dava ouvidos?

Não porque ele adorava aquilo. Segundo o Cláudio Montez, que nos últimos tempos andava como ele de carro para todo o lado, o Carlos, de vez em quando, gritava: "Ai, uma mensagem. Uma mensagem do Renato!" E ficava maluco. O certo é que o rapaz foi alimentado a fantasia dele, bolas!

Por seu lado, o Carlos lá o ia mimando com presentes.

O Carlos adorava passar fins-de-semana em Madrid. Uma vez foram os três, o Cláudio Montez, ele e o Renato. Chegaram, foram para um hotel. O Cláudio ficou no seu quarto e eles num quarto de casal. Estava frio e o Carlos disse logo que o Renato precisava de um bom sobretudo. Correram umas quantas lojas, mas o menino não gostava de nada do que ia vendo. O Montez ficou com uma impressão do rapaz... era um sobretudo que não lhe assentava bem, era outro que não ficava bem. O rapaz era muito vaidoso. Isso o Cláudio percebeu. Tinha o culto do corpo. Andaram pelas lojas até que por fim compraram um sobretudo de 200 euros, mas o Carlos estava sempre a dar-lhe roupas.

A família do Renato sabia desta amizade?

A mãe do Renato chegou a enviar duas ou três mensagens pelo Natal, a desejar-lhe boas festas e a agradecer tudo o que ele andava a fazer pelo filho. Que estava muito grata. E o Carlos disse que gostava muito do filho. A senhora certamente devia achar que, sendo o Carlos uma pessoa conhecida, iria ajudar a lançar o seu filho, mas o Renato fez um jogo duplo: uma coisa era o que ele dizia à família e aos amigos; a outra era como ele alimentava a fantasia do Carlos. Mas quando caiu a ficha - aí está a palavra certa - foi a explosão que se passou dentro dele próprio. Quando ele diz "Já não sou mais gay", essa frase mostra muita coisa. Conhecendo o Carlos como o conheci, deve ter andado a espicaçá-lo, a dizer que ele não gostava de raparigas e que era tão bicha quanto ele.

Voltando atrás. Como conheceu o Carlos?

Foi em 1975. Eu vim de Moçambique e ele de Angola, no rescaldo da descolonização. Cheguei no meio da minha carreira jornalística com 43 anos, entrei para o DN e recomecei a minha vida. O Carlos era um rapaz de 20 e poucos anos, que em Angola trabalhou no comércio ou qualquer coisa relacionada, mas que gostava de escrever. Chegou a escrever uns contos numa revista, ganhou um prémio num concurso de poesia. Mas quando chegou cá, comeu o pão que o diabo amassou. Veio em ponte aérea sozinho. A família veio depois noutro avião e foram conduzidos para algures no Norte do país. O Carlos ficou sem saber onde estava a família. Andou desesperado e até passou fome. Chegou a dormir algumas noites no vão de escadas de um prédio do Príncipe Real. Quem lhe deitou a mão foi Rute Bryden, o tal travesti.

Isso, numa altura em que o travestismo estava em explosão.

Sim, isso foi logo a seguir ao 25 de Abril. Não o travestismo de rua ou do engate, mas do espectáculo. Foi nessa altura que abriu o cabaret o Scarlaty, da Guida Scarlaty, a coqueluche daquela altura. Eram espectáculos deslumbrantes. Iam lá os capitães de Abril, era de bom tom. Não era o mundo gay que lá ia. Ia o mundo elegante ver o espectáculo dos travesti. A Guida e a Lídia Barloff eram as cabeças de cartaz. Nessa altura estava muito na berra na RTP a série dos Marretas com uma personagem deliciosa, a miss Piggy. A Rute Bryden tem a ideia de convidar o Carlos para fazer o papel de Miss Piggy, porque ele era pequenino. E prometeu: "Vou arranjar-te um emprego". Como o Carlos gostava desse mundo do espectáculo, aceitou o desafio. Foi aí que o conheci, pela mão da Guida Scarlaty.

De que falaram?

Conversámos muito, e ele contou-me que o que gostava de fazer era entrar para um jornal. Gostava de escrever e precisava de ganhar dinheiro. E eu telefonei para a Maria Elvira Bento, uma jornalista que também tinha vindo de Angola, e perguntei: "Você conhece um rapaz, o Carlos Castro? Vá lá ver ao cabaret, ele faz um número muito engraçado." E ela foi. Como trabalhava na Nova Gente e sabia que o Carlos era uma pessoa versada, que fazia já as fofocas sociais - o ídolo dele foi sempre a Vera Lagoa - acabou por lhe dar a mão. Estava com ideias de criar uma página de fofocas, sobre as festas, os vestidos. "Você fazia?", perguntou-lhe ela. E ele, claro, disse que adorava - e criou essa página chamada Ziriguidum que fechava a revista. Era uma coisa de cusquice, que ele assinava como Daniela para se proteger das alfinetadas que dava. Durou uma data de anos. Quando acabou, o Carlos começou a ter muita saída.

Nessa altura, já sabia da orientação sexual do Carlos?

Claro, nós temos um... Uma linguagem secreta. Um homossexual detecta logo outro - até pode ser casado e ter filhos. A gente diz logo "a mim não me enganas", há sempre um olhar, um gesto...

Ele nunca tentou seduzi-lo?

Nunca! Nunca tivemos interesse um no outro. Éramos duas lésbicas. Mas eu tive uma coisa que o Carlos nunca foi capaz: tive montes de amigos homossexuais, do jornal, de fora, que ainda hoje são meus amigos amigos, e outros que não são homossexuais. As pessoa interessavam-me por serem pessoas, não por serem homossexuais ou não. Já o Carlos era diferente, só tinha amigos homossexuais. Às vezes dizia-me: "Mas o que é que conversas com eles?" Ora a gente não conversa só de bichices. O encanto da vida está na diversidade.

É habitual essa postura, viver muito fechado na homossexualidade?

Não só o Carlos. A maioria dos gays funcionam em gueto. Eu nunca o consegui. Tanto que não pertenço nem à Opus Gay nem à Ilga nem a nada disso. Conheço e apoio, mas não pertenço.

Mas empunhou muito a bandeira da causa gay.

Sim, sempre. Mesmo em Moçambique. E tive um companheiro lá com quem vivi sete anos e que apresentava a toda a gente como o meu companheiro. Toda a gente ficava assim surpreendida e eu dizia: "Sim, sou homossexual, se quiser continuar a conviver comigo, óptimo, se não, paciência." Sou muito franco. E nunca fui achincalhado, humilhado, nunca tive nenhum amigo que se afastasse por eu ser homossexual. Isso é o meu orgulho.

A ponto de ser o primeiro homossexual a assumir-se no nosso país.

Toda a gente sabia que eu era homossexual, vivia abertamente. Quando cheguei cá, fui para o Diário de Notícias, com o Mário Zambujal a chefe de redacção. Ao fim de dois meses, no dia da eleição da miss Universo, estavam uns dez jornalistas na redacção a ver chegar as telefotos. E eu aproximo-me e digo "Ah, estão todos muito animados!" E diz-me um colega: "Olha, ainda bem que apareceste, Guilherme. Amanhã é a eleição da Miss Universo e estamos aqui a discutir com o Mário quem vai para a primeira página. O Mário quer pôr uma e nós achamos que a melhor é outra; tu tens pinta de gostar de gajas, decide lá." A gozar-me. E eu peguei nas fotos e disse: "Ok, eu faço. Então, antes de mais, todos vocês sabem que eu sou homossexual - e não o escondo. Mas sabem qual é a diferença que há entre nós? É que eu sou capaz de dizer que é uma bonita rapariga e vocês não dizem é um bonito rapaz porque parece mal. A beleza não tem sexo."

E o Mário Zambujal...?

O Mário? O Mário levanta-se, vem direito a mim e diz-me: "Tu podes ser um grande paneleiro, mas tens uns grandes tomates!" A partir daí nunca mais ninguém se meteu comigo. O meu companheiro ia buscar-me ao jornal, cumprimentávamo-nos com um beijo na boca, à frente de toda a gente. Eu e o Ilídio fomos o primeiro casal homossexual a ir à televisão.

Como o convenceram?

Em 1981 publiquei a minha autobiografia, "A Sombra dos Dias". Um anos depois, o Joaquim Furtado contactou-me para ir a um debate sobre homossexualidade com um padre, um psicólogo e um psiquiatra e uma mãe de família, a Teresa Costa Macedo. Perguntei ao meu companheiro se queria ir e fomos. O Joaquim Furtado ficou louco.

E o dia seguinte, como foi? Deve ter tido um certo impacto na sua vida.

O impacto foi um prémio: um casal de namorados passa por nós junto a São Bento. Abordaram-nos e perguntaram se tínhamos estado na televisão na noite anterior. (pausa) Ela pediu para nos dar um beijo. Isto em 1982. (chora).

Os seus pais sempre aceitaram?

No dia em que lhes disse, ainda estávamos em Moçambique, eles responderam-me: "Não nos estás a dar uma novidade. Continuas a ser nosso filho e, se a pessoa que escolheste é digna de ti, queremos conhecê-lo". No dia seguinte, estávamos todos a jantar em casa dos meus pais.

por André Rito, Publicado em 15 de Janeiro de 2011

http://www.ionline.pt/conteudo/98679-carlos-castro-sabia-que-o-renato-nao-era-homossexual

RENATO PROTEGIDO POR MÉDICOS


A equipa de psiquiatras que segue Renato Seabra no Hospital de Bellevue, em Nova Iorque, considera que o jovem português não está em condições de enfrentar o tribunal, por ser incapaz de perceber a gravidade do crime de que está indiciado. O parecer clínico é claro, e aponta para perturbação psicológica, anterior ou na sequência do brutal homicídio de Carlos Castro.

Hoje, um juiz desloca-se ao hospital, acompanhado por uma procuradora responsável pela acusação e pelo advogado de defesa. Renato será pela primeira vez interrogado por um juiz – mas o interrogatório decorrerá na presença dos médicos.

A deslocação ao hospital das autoridades surge numa altura em que o ‘crime de Times Square’, como ficou conhecido, já não faz as manchetes locais. Mas o sistema de Justiça não esquece. O homicídio de Carlos Castro "é inédito, uma mancha" na zona nobre da cidade, lembra um polícia. E à espera de Renato Seabra, "com ou sem atenuantes", está Rikers Island, a cadeia de alta segurança do Estado de Nova Iorque. "Um inferno" isolado do mundo, na ilha de 167 hectares e disputada por 12 mil prisioneiros, entre assassinos, violadores e membros do crime organizado. A ala gay, extinta em 2005, não serve de abrigo ao jovem português. "Agora estão todos juntos". Só o isolamento, 23 horas por dia, lhe pode valer contra o risco de agressões sexuais.

Carros particulares ficam para cá da ponte, em Long Island, com os familiares a atravessarem em autocarros prisionais. Será esta a rotina dos pais de Renato, "num ambiente diabólico", reforça o jornalista Luís Pires, que vive nos EUA e conhece Rikers Island por dentro. "O cheiro, os ruídos, os gritos. É abominável o tratamento que dão aos visitantes." "Fiz muitas histórias com gente ali presa, por exemplo, uma jovem portuguesa que levou 12 anos, apanhada com meio quilo de ecstasy. E ao visitá-la fiquei com a impressão de que era também prisioneiro."

O pior são os abusos entre presos, com a conivência dos guardas, e os crimes cometidos por estes últimos, que marcam a história recente da cadeia. São vários os casos de elementos julgados e condenados por extorsão e castigos impostos a presos, à base de extrema violência. Além da corrupção, às ordens do crime organizado. É este o ambiente que espera Renato Seabra nos próximos anos.

"O CARLOS SÓ TINHA UMA CARA"

Vanda, a ex-mulher do jornalista Luís Pires que confrontou Renato na noite do crime, está impedida de falar do caso. No entanto, recorda o amigo que encontrou "feliz" nos últimos dias. "Deixa muitas saudades, o que era em público era em privado. Só tinha uma cara", disse.

PROCURADORAS COM ACESSO A DECLARAÇÕES NO HOSPITAL

A acusação a Renato Seabra está a ser preparada nos últimos dias pela Procuradoria local, em simultâneo com a avaliação psiquiátrica que há uma semana é feita numa ala restrita do Hospital de Bellevue – e que ontem apontou para perturbação psicológica. Tudo passa pelas duas procuradoras que conduzem a investigação, em articulação com a polícia de Nova Iorque, e têm acesso às declarações do jovem no hospital. "Tudo o que diga ali, aquilo que confessar, pode virar-se contra ele, passa a constar nos autos. Apesar da sua debilidade e sem a presença ou intervenção da defesa, que só apareceu mais tarde", critica uma fonte que conhece o sistema norte-americano de Justiça. "A avaliação psiquiátrica viola todas as normas jurídicas e éticas", diz a mesma fonte, e "tudo se torna muito complicado em termos de estratégia de defesa".


Renato Seabra, quando tiver alta clínica, será presente a um Grande Júri, que validará ou não a acusação e decidirá as condições em que chegará a julgamento.

CERIMÓNIA ANTECIPADA

A deposição de metade das cinzas de Carlos Castro foi antecipada para as 10h00 de amanhã no cemitério de Trinitu, Nova Iorque. À tarde, mantém-se a cerimónia em Newark, com missa rezada por um padre português na Igreja de N.ª Senhora de Fátima.

PRISIONEIROS DEPORTADOS

O risco de sobrelotação é levado a sério, e todos os anos o estado de Nova Iorque se pronuncia sobre a possível deportação de mais de 3200 presos estrangeiros. Muitos obtêm decisão favorável. Tal não será porém o caso de Renato Seabra.

JULGAMENTO EM POUCOS MESES

Fontes judiciais contactadas pelo ‘CM’ acreditam que Renato Seabra chegará a julgamento entre três a sete meses. No entanto, é difícil apontar uma data concreta, devido à complexidade do processo. Até lá, espera-o a cadeia de Rikers Island.

NOTAS
GUILHERME DE MELO: DEFESA

Na opinião do conhecido jornalista e escritor, o seu grande amigo Carlos Castro não era um homem "promíscuo". "Ele não ia para a cama com qualquer um", garante.

ROMANCE: SMS REVELADORES

Através de várias mensagens escritas, Renato revelava-se um namorado preocupado com Carlos Castro. O tom carinhoso era uma constante, bem como a palavra "adoro-te".

14-01-2011

http://www.vidas.xl.pt/noticia.aspx?channelId=83c1118f-0a09-426d-88d0-7a0980df951a&contentId=5aed40b4-5332-4d91-a770-c3e9ff3fc5f5

DAVID TOUGER É O ADVOGADO DE RENATO


Com experiência em crimes violentos

David Touger, um dos membros fundadores da agência de advogados Peluso & Touger LLP, é o advogado de defesa de Renato Seabra, principal suspeito da morte de Carlos Castro em Nova Iorque.

O norte-americano, natural de Brooklyn, judeu, esteve esta sexta-feira ao lado de Renato Seabra, na primeira audiência que decorreu a partir do Hospital de Bellevue. Touger pediu ao juiz Ferrata que não autorizasse recolha de imagens.

Com experiência no direito criminal, David já defendeu pessoas envolvidas em crimes violentos, casos de tráfico de droga ou crimes de colarinho branco.

Segundo o site da agência de advogados, Touger estudou na Brooklyn Law School e formou-se em 1984. Começou por defender clientes que eram detidos e não tinham dinheiro para contratar um advogado na Legal Aid Society, da qual saiu em 1988 já com mais de 30 casos entre mãos.

David Touger tem experiência em Tribunais Estatais e Federais e tem representado vários clientes em muitas jurisdições fora da área metropolitana de Nova Iorque.

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/david-touger-e-o-advogado-de-renato-seabra