Sunday, 13 March 2011

VISEU: A MANIFESTAÇÃO

MAR DE GENTE NA MANIFESTAÇÃO "GERAÇÃO À RASCA" EM LISBOA


Avenida da Liberdade foi pequena para acolher a multidão que ontem protestou

Protesto em Lisboa: Movimento cívico alastrou a toda a sociedade

Jovens enrascados trazem famílias inteiras para a rua

"O País precário saiu do armário". Palavras de ordem como estas juntaram ontem um mar de gente na avenida da Liberdade, em Lisboa, na manifestação da ‘Geração à Rasca’, que se estendeu por todo o País em protesto por mais e melhores condições laborais.

Mas o movimento, nascido de uma conversa de café entre quatro jovens desiludidos com a precariedade do mercado de trabalho, estendeu-se muito além de estudantes e recém-licenciados. Ontem, o desfile até ao Rossio foi acompanhado por novos e velhos, por famílias inteiras e não foram poucas as crianças que participaram, pela mão dos pais, na marcha. "Fui precária até há bem pouco tempo, mas tenho um filho de nove anos, e estou preocupada pelo futuro dele, que se avizinha", justificou Carla Castanheira ao CM. Aos 17 anos, uma jovem estudante marcou presença pelo seu próprio futuro, mas também segurando a faixa que reclamava contra o despedimento colectivo na empresa da mãe. E pelo caminho, uma mãe instigava a filha a receber um panfleto. "Aceita filha, porque quando chegar a tua vez ainda vai ser pior."

A presença de famílias e de muitas crianças pode explicar a forma pacífica como decorreu a marcha lenta, e ajuda a confirmar o carácter cívico e apartidário que a organização sempre reclamou para o movimento. Só a adesão de alguns elementos do Partido Nacional Renovador (PNR) mereceu alguns apupos e gritos de resposta de "apartidário, laico e pacífico" por parte da maioria.

A manifestação arrancou pouco depois das 15h30, junto ao Cinema São Jorge. Às 17h30, quando os primeiros protestantes chegavam ao Rossio, não se via ainda o fim do cordão humano que se estendia até à Praça do Marquês de Pombal.

A organização aponta cerca de 200 mil participantes, um número que engrossou graças à chegada da manifestação de professores que se juntou mais tarde ao grupo, embora não haja dados oficiais. Mas Manuela Weigel, de 43 anos, chegou antes. "Nós nascemos num bom tempo, tivemos sorte. O que vão fazer estes jovens a tanta formação?", questionava a docente.

Prevista para terminar no Largo de Camões, o elevado número de participantes empurrou a manifestação para o Terreiro do Paço, apesar de não ter sido pedida autorização para o trajecto. A marcha, que decorreu sempre sem incidentes, viveu aqui os momentos mais quentes, com alguns participantes a queimarem faixas. A chuva dispersou os últimos manifestantes, mas para ontem à noite estavam marcados convívios e festas para prolongar o encontro e o debate.

PROFESSORES JUNTAM-SE AOS FILHOS NA MARCHA

Na manifestação dos professores que decorreu ontem em Lisboa (ver página 20), foram várias as alusões ao protesto da ‘Geração à Rasca', que decorria à mesma hora. Muitos dos participantes referiram mesmo a adesão dos próprios filhos na marcha da avenida da Liberdade, à qual alguns acabaram mais tarde por se juntar. "Não somos a Geração Rasca, mas também estamos à rasca", declarou Ricardina Guerreiro, do Sindicato Nacional de Profissionais da Educação.

"ESTAMOS A SER ROUBADOS"

Nas cidades do Centro onde a ‘Geração à Rasca' organizou manifestações, a adesão foi a esperada e decorreram dentro da normalidade. Em Leiria, juntou-se meio milhar de pessoas, enquanto em Viseu estiveram 600. Menos pessoas concentraram-se em Coimbra e Castelo Branco. Talvez devido à intensa chuva que caiu, em Seia não se realizou o protesto.

Apesar do frio e da chuva que caiu a espaços, o Rossio, em Viseu, esteve bem composto por pessoas de todas as idades. Aliás, foram os mais velhos que animaram a manifestação e ajudaram os jovens, a maioria deles nada habituados a estas andanças. "Finalmente o povo pode falar à vontade", gritou João Oliveira Cruz, do alto de um improvisado palco, adiantando: "Estamos a ser roubados. Vamos gritar bem alto para que se acabe com o roubo dos reformados". Pelo palco passaram ainda jovens que contaram "as dificuldades para arranjar trabalho" e criticaram os dirigentes políticos, sobretudo o Governo e José Sócrates.

Paulo Agante, organizador do protesto, disse que "os objectivos foram cumpridos". Pelo Rossio passaram militantes de vários partidos e pessoas que escreveram em cartazes o que lhes vai na alma. A PSP vigiou o protesto de forma discreta e à distância.

Por:Sofia Piçarra/L.O.


GERAÇÃO À RASCA: REVOLTA E DESESPERO


Selda Soares, de 47 anos, participou na manifestação acompanhada por um dos filhos, Vasco Vitória, de 23 anosProtesto: No Porto, mais de 80 mil manifestantes saíram à rua


Lágrimas e revolta de norte a sul

"Sou professora e durante muitos anos menti aos meus alunos dizendo que para serem alguém na vida deveriam tirar um curso. Estou farta! Hoje só aconselho a tirar um curso a quem quer ser escravo."

Visivelmente emocionada e também revoltada, Selda Soares, de 47 anos, mãe de três estudantes universitários, participou ontem no protesto ‘Geração à Rasca’, que se realizou de norte a sul do País. Só na cidade do Porto, a organização fala numa adesão de mais de 80 mil pessoas, não só jovens recém-licenciados, mas também os ‘falsos recibos verdes’.

"Eu não estou à rasca. Estou à rasquinha. Um dos meus filhos já deixou a universidade pois o dinheiro não chega para tudo. O meu filho mais velho está desempregado. Só encontra trabalho a falsos recibos verdes. Mas que país é este?", desabafou Selda, que tem dois empregos para que a filha mais nova possa continuar a "sonhar com um canudo que nunca vai servir para nada".

"Quero que os meus filhos deixem a casa da mãe. Quero que cresçam e possam ser gente. Sinto que vivo num país de ladrões e que cada vez piora mais. Que venha o segundo 25 de Abril", disse a mulher, sem conseguir conter as lágrimas.

Por:Nelson Rodrigues


FUKUSHIMA: AMEAÇA DE CATÁSTROFE NUCLEAR


Terramoto no Japão: Explosão em central de Fukushima faz temer repetição de Chernobyl

Um dia depois de sofrer o impacto do mais violento terramoto de que há memória no país, seguido de um tsunami com ondas de 10 metros, o Japão vivia ontem momentos de caos, desespero e pânico ante a possibilidade de uma central nuclear em Fukushima soltar para a atmosfera uma nuvem radioactiva mortífera.

Ontem ao início da tarde, madrugada em Lisboa, uma explosão destruiu a protecção de betão do edifício do reactor Daiichi 1, fazendo recear uma tragédia nuclear semelhante à de Chernobyl em 1986. Para já, o nível de gravidade da fuga foi colocado em quatro, numa escala cujo máximo, sete, foi justamente o atingido aquando do acidente na central ucraniana.

As autoridades ordenaram a retirada de 140 mil pessoas da área de risco, 240 km a norte de Tóquio, e realizaram medições de radioactividade a todos os residentes, separando os que revelam sinais de contaminação. Além disso, distribuíram iodo para combater os efeitos cancerígenos da radiação.

Os peritos asseguram que não há risco de fuga radioactiva grave e acrescentam que o arrefecimento do reactor está a ser conseguido com recurso a água do mar. Mas, se o núcleo do reactor fundir, a gravidade da fuga dependerá do sentido do vento. Se soprar de Noroeste, afasta a radioactividade para o mar. Ontem, soprava de Sul.

Entretanto, noutras regiões devastadas pelo tsunami, faz-se já sentir escassez de víveres, medicamentos, água potável e abrigos para o frio, que à noite atinge temperaturas negativas.

No Norte e Leste do Japão, cerca de 300 mil pessoas vivem em abrigos, reunindo-se em torno de fogueiras à chegada da noite. "Parece a cena de um filme de catástrofe", contou um residente de Sendai, cidade capital da prefeitura de Miyagi, a mais castigada pelo impacto da onda gigante.

QUASE 10 MIL POR LOCALIZAR EM VILA DA REGIÃO DE MIYAGI

As autoridades japonesas estimavam ontem que o número de mortos no terramoto e tsunami que atingiu o país ultrapasse já os 1700. Mas os números da tragédia podem revelar-se bem mais dramáticos, pois só em Minami Sanriku, na prefeitura de Miyagi, a mais castigada pelo tsunami, pelo menos 9500 dos 17 mil habitantes da povoação estão em paradeiro incerto.

Os números oficiais dão conta de 703 mortos confirmados e 784 desaparecidos. A estes números não são somados, para já, os 9500 residentes de Minami Sanriku por não ser claro quantos terão escapado pelos seus próprios meios para localidades vizinhas.

Entretanto, quatro comboios nas prefeituras de Miyagi e Iwate estão dados como desaparecidos, ignorando-se se eram composições de passageiros ou de mercadorias.

As estimativas dos estragos também não são ainda muito claras, mas calcula-se que pelo menos 3400 edifícios tenham sido arrasados e há notícia de mais de 200 incêndios nas áreas de maior impacto do sismo, no Nordeste do país.

Começaram, entretanto, as operações de busca e resgate de sobreviventes. Em Iwanuma, perto de Sendai, capital de Miyagi, um enorme SOS foi escrito no telhado de um hospital, um de muitos sinais de desespero de pessoas isoladas em edifícios cercados por água.

EQUIPAS DE AJUDA HUMANITÁRIA JÁ A CAMINHO

O Japão aceitou ofertas de ajuda da ONU e de sete países, entre eles Austrália, Nova Zelândia, México e EUA, que envia 200 especialistas, incluindo médicos. Os restantes países reuniram 217 peritos, além de 22 toneladas de material médico. A ONU envia sete peritos em avaliação e coordenação de meios em áreas de desastre. O governo japonês mobilizou, por seu lado, 50 mil soldados e equipas de resgate para busca de sobreviventes e assistência aos desalojados. As equipas são apoiadas por 190 aviões e 25 barcos.

DISCURSO DIRECTO

"PODE SER UM NOVO CHERNOBYL": Francisco Ferreira, Ex-presidente da Quercus

Correio da Manhã - Há risco de catástrofe nuclear no Japão?

Francisco Ferreira - Não há certezas. Ontem dizia-se que a pressão no reactor estava controlada, mas tudo depende da capacidade de se manter a temperatura num nível seguro.

- Qual é o pior cenário?

- A fusão do combustível nuclear. Nesse caso, a zona de contenção deixa de existir e passa-se a uma situação de fuga radioactiva descontrolada. Seria algo próximo do que aconteceu em Chernobyl.

Por:F. J. Gonçalves com agências


Saturday, 12 March 2011

PIOR QUE CHERNOBYL

Milhares de pessoas retiradas da região

Japão: acidente nuclear é o pior desde Chernobil

Cerca de 45 mil pessoas foram já retiradas da região onde está a central nuclear de Fukushima I, palco hoje de uma grande explosão, na sequência do sismo que abalou o Japão ontem. É o pior acidente nuclear desde Chernobil.


A explosão da central (NTV/Reuters)

A explosão foi classificada pela Agência Segurança Nuclear e Industrial japonesa como um acidente nuclear de nível 4 – numa escala de 1 a 7. O acidente de Three Mile Island em 1979, nos Estados Unidos, teve nível 5 e a catástrofe de Chernobil, em 1986, na ex-URSS, chegou ao nível 7. O Governo japonês afirma que a acidente está controlado. O acidente deu-se às 15h36 (6h36, hora de Lisboa), fez quatro feridos leves e lançou o pânico de que um incidente parecido com o de Chernobil se repetisse no Japão.

Mas um porta-voz do Governo garantiu que as radiações estavam a baixar e que a explosão não tinha afectado o núcleo do reactor. “A segurança dos nossos concidadãos é a prioridade que guia as nossas acções”, declarou o primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, ao final da tarde.

A central fica na costa Leste do país, 250 quilómetros a nordeste de Tóquio. O sismo causou uma avaria no sistema de refrigeração na central e um corte de electricidade impediu a recuperação deste sistema, permitindo que os bastões de combustível continuassem a aquecer, aumentando a pressão interna no reactor.

A empresa japonesa Tokyo Electrical Power Co, que gere as instalações, tentou reduzir alguma desta pressão libertando vapor radioactivo. Mas não foi o suficiente para impedir a explosão que destruiu o tecto do edifício do reactor principal. A televisão japonesa NHK anunciava ontem que o nível da radioactividade fora da central era oito vezes superior ao normal.

12.03.2011 - 09:20 Por PÚBLICO