Sunday, 18 March 2012

RAMPA SEISCENTISTA ESCONDIDA DEBAIXO DO ASFALTO NO CAIS DO SODRÉ

No Cais do Sodré há mais do que uma praia escondida debaixo do asfalto

18.03.2012 - 16:10 Por Ana Henriques


A enorme rampa servia no século XVI para lançar barcos ao rio 
(Pedro Cunha)

Enorme rampa de lançamento de barcos do séc. XVI foi descoberta debaixo da Praça D. Luís, juntamente com vestígios de estruturas de séculos posteriores.

A descoberta tem menos de um mês. Os arqueólogos encontraram uma enorme rampa de lançamento de barcos do séc. XVI junto ao mercado da Ribeira, em Lisboa. Feita com troncos de madeira sobrepostos, a estrutura ocupa 300 metros quadrados e data de uma época em que a cidade sofria os efeitos de sucessivos surtos de peste e epidemias, graças aos contactos com outras gentes proporcionados pelos Descobrimentos.

Para continuar a trazer de além-mar o ouro, a pimenta e o marfim que lhe permitiam pagar as contas, o reino investia na construção naval, e a zona ribeirinha da cidade foi designada como espaço privilegiado de estaleiros. Os relatos da altura dão conta de uma cidade cheia de escravos vindos de além-mar, mas também de mendigos fugidos do resto do país para escapar à fome.

Os arqueólogos nem queriam acreditar na sua sorte quando depararam com a rampa enterrada no lodo debaixo da Praça D. Luís, a seis metros de profundidade, e muito provavelmente associada a um estaleiro naval que ali deverá ter existido. "É impressionante: é muito difícil encontrar estruturas de madeira em tão bom estado", explica uma das responsáveis da escavação, Marta Macedo, da empresa de arqueologia Era.

No Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico o achado também tem sido motivo de conversa, até porque os técnicos desta entidade foram chamados a acompanhar os trabalhos, que estão a ser feitos no âmbito da construção de um parque de estacionamento subterrâneo. A subdirectora do instituto, Catarina de Sousa, diz que esta e outras estruturas encontradas são, apesar de muito interessantes, perecíveis, pelo que a sua conservação e musealização na Praça D. Luís é "praticamente inviável". Como a escavação ainda não terminou, os arqueólogos acalentam a esperança de ainda serem brindados, em níveis mais profundos, com algum barco submerso no lodo, como já sucedeu ali perto, tanto no Cais do Sodré como no Largo do Corpo Santo e na Praça do Município. "É possível isso acontecer", admite Catarina de Sousa.

Musealização em estudo

No séc. XVI toda a zona entre o mercado da Ribeira e Santos era de praias fluviais. Mas não era para lazer que serviam os areais banhados pelo Tejo. Na História de Portugal coordenada por José Mattoso, Romero Magalhães conta como, poucos anos após a primeira viagem de Vasco da Gama à India, "a zona ribeirinha da cidade é devassada pelos empreendimentos do monarca [D. Manuel I] e dos grandes armadores".

Depressa surgem conflitos com a Câmara de Lisboa, ao ponto de o rei ter, em 1515, retirado ao município a liberdade de dispor das áreas ribeirinhas para outros fins que não os relacionados com o apetrecho e reparação das naus, descreve o mesmo autor. São as chamadas tercenas, locais dedicados à função naval e representados em vários mapas da época. Mais tarde a mesma designação passa a abranger também o lugar onde se produziam e acondicionavam materiais de artilharia.

O espólio encontrado pelos arqueólogos inclui uma bala de canhão, um pequeno cachimbo, um pião, sapatos ainda com salto - na altura os homens também os usavam -, restos de cerâmica e uma âncora com cerca de quatro metros de comprimento, além de cordame de barco. Também há uma casca de coco perfeitamente conservada, vinda certamente de paragens exóticas para as quais os portugueses navegavam.

Um relatório preliminar dos trabalhos arqueológicos em curso explica como a zona da freguesia de S. Paulo se transformou de um aglomerado de pescadores, fora dos limites da cidade de Lisboa, num espaço importante para a diáspora: "A expansão ultramarina contribuiu para uma reestruturação do espaço urbano de Lisboa, que se organiza desde então a partir de um novo centro: a Ribeira". Em redor do Paço Real reúnem-se os edifícios administrativos. "É na zona ocidental da Ribeira que a partir das doações de D. Manuel se irão instalar os grandes mercadores e a nobreza ligada aos altos funcionários de Estado, que irão auxiliar o rei (...) na expansão ultramarina e na centralização do poder", pode ler-se no mesmo relatório. A escavação detectou ainda restos de outras estruturas mais recentes. É o caso de uma escadaria e de um paredão do Forte de S. Paulo, um baluarte da artilharia costeira construído no âmbito das lutas da Restauração, no séc. XVII. E também do vestígios do cais da Casa da Moeda, local onde se cunhava o metal usado nas transacções. Por fim, foram descobertas fornalhas da Fundição do Arsenal Real, uma unidade industrial da segunda metade do séc. XIX.

"Esta escavação vai permitir conhecer três séculos de história portuária", sublinha outro responsável pela escavação, Alexandre Sarrazola. Embora esteja ciente de que a maioria dos vestígios terá ser destruída depois de devidamente registada em fotografia e desenho, o arqueólogo diz que algumas das peças encontradas poderão vir a ser salvaguardadas e mesmo integradas no projecto do estacionamento, como já sucedeu com os vestígios do parque de estacionamento subterrâneo do Largo do Camões - ou então transportadas para um museu.

"Face ao desconhecimento do que ainda pode vir a ser encontrado por baixo da estrutura de madeira do séc. XVI está tudo em aberto", salienta, acrescentando que a decisão final caberá ao Instituto do Património Arquitectónico e Arqueológico.

http://www.publico.pt/Local/no-cais-do-sodre-ha-mais-do-que-uma-praia-escondida-debaixo-do-asfalto-1538418?all=1

Saturday, 17 March 2012

PADRE REGINALDO MANZOTTI: "CREIO NO DEUS DO IMPOSSÍVEL"

PADRE REGINALDO MANZOTTI CANTA "FOI DEUS"

GRUPO "IR AO POVO" CANTA "SOPRO DE VIDA"

CAMÉLIAS EM SINTRA




As camélias são tão complexas quanto as suas formas, os nomes ou as cores, que vão do branco puro ao encarnado escuro. Algumas são púrpuras – as mais raras, como a herzília, uma variedade portuguesa. Outras têm manchas, riscas ou pintas. As pétalas, que podem ser mais de cem, são mais carnudas do que as de uma rosa e iguais em beleza. Só perdem no campeonato do perfume, porque as camélias, no geral, não têm cheiro. Apenas algumas da variedade sasanqua. 

Em Sintra, a sua introdução e o gosto pelo seu cultivo, no século XIX, deve-se a D. Maria II e a D. Fernando II. Muitas das variedades, nascidas na época, foram baptizadas com nomes de membros da Família Real, em homenagem e como forma de divulgação desta flor no país. 

Assim, existem as dedicadas a rainhas como D. Maria Pia – branca com riscas de carmesim – e outras a reis e imperadores. D. Pedro V foi homenageado com uma branca com marcas e riscas cor-de-rosa e D. Pedro, imperador do Brasil, com uma branca com riscas carmesim. A condessa d’Edla também teve direito à sua flor, o que nos leva à camélia enquanto símbolo de uma história de amor num dos cenários mais românticos de Portugal – Sintra. 

O casamento de D. Fernando II (viúvo de Dona Maria II) com Elise Hensler, uma cantora de ópera sem pinga de sangue azul, era mal visto pela sociedade e pela imprensa portuguesa. Para escapar aos olhares de esguelha e às línguas afiadas da elite de Lisboa, os dois refugiavam-se em Sintra, onde D. Fernando tinha comprado o abandonado mosteiro da Nossa Senhora da Pena. 

Eterno apaixonado pela arte e botânica, é a ele e à mulher, feita condessa d’Edla, que se deve o património florestal, camélias incluídas, da Pena. No meio do parque, a condessa iniciou a construção de um edifício, quase tão inédito como o seu casamento. O chalet tem fachadas que imitam madeira e varandins feitos com cortiça. Deixado ao abandono, ardeu em 1999, mas foi recuperado e aberto ao público. E é lá que começa a visita guiada ao mundo das camélias em Sintra, na companhia do arquitecto paisagista inglês Gerald Luckhurst e do engenheiro florestal Nuno Oliveira, dos Parques de Sintra – Monte da Lua. 

A passos largos, que o parque é grande, dirigimo-nos a uma árvore grande, repleta de pontos de tons carmim. A imagem é digna de fotografia e de conversa. «São camélias reticulatas», diz Nuno Oliveira. «Não é habitual vê-las noutros jardins, devido à sua dimensão», acrescenta o arquitecto paisagista a viver há 25 anos em Portugal. E conta que este tipo de reticulatas foi trazido pelo capitão inglês Rawes, no século XIX. 

«Mais antigas só no Porto», refere. «São flores que precisam de grande humidade no solo, o que acontece quando há granito ou basalto», o que explica que não haja muitas camélias no Sul, «apenas em Sintra e em Monchique»

Continuamos caminho e, pelo chão, encontram-se verdadeiros tapetes de pétalas. Apesar de resistente, «a camélia é muito sensível e depois de aberta poderá durar dois a três dias antes de cair», sublinha Joana Guedes, presidente da Associação Portuguesa de Camélias. 

Para Nuno Oliveira e Gerald Luckhurst, caminhar sobre elas é uma das atracções da Pena nesta época do ano – começam a florescer em Novembro e continuam até Abril. Mas o seu momento alto é agora. 

Engenheiro e arquitecto vão apontando, ora para as brancas, ora para as cor-de-rosa, sem esquecer as vermelhas. Nuno Oliveira demora-se em algumas, admirando-lhes as pétalas. Umas são arredondadas, outras em forma de seta. 

«As flores das camélias são muitíssimo variadas, desde a singela, com apenas cinco pétalas à dobrada formal ou àquelas que têm uma enorme profusão de pétalas», explica ao SOL Joana Guedes. Há ainda as amarelas, originárias do Vietname, mas também «há entusiastas que tentam obter camélias azuis»

A diversidade destas flores é de tal modo «incrível» que Gerald Luckhurst, responsável por vários projectos de recuperação de jardins nos parques de Sintra, conta que «todos os anos são registadas novas flores»

Oriundas do Japão e da China, são plantas arbustivas não muito grandes, mas «com o passar dos anos as mais antigas transformam-se em árvores, com copas até 15 metros de diâmetro e altura de sete a oito metros», diz Joana Guedes. 

A sua beleza era tão apreciada que não passou muito até que as cortes europeias tivessem jardins de camélias. Sendo de fácil mutação, rapidamente começaram a surgir híbridos – flores nascidas de mais do que uma variedade. 

Além de ornamentais, as camélias têm outras utilizações; «o óleo dos frutos é muito usado no oriente para iluminação, lubrificação e ainda como ingrediente essencial de produtos de beleza». 

No entanto, a utilização mais apreciada é enquanto flor do chá. Segundo a lenda, o imperador chinês Shen Nung, que terá reinado entre 1737 e 1705 a.C., estava sentado debaixo de uma cameleira e preparava-se para beber água, quando lhe caiu uma folha na taça, gostou tanto que a infusão dessa folha passou a ser a bebida oficial da sua corte. 

A corte portuguesa do séc. XIX teria ficado contente por assistir à divulgação da flor que se faz pela segunda vez em Sintra. Em especial, D. Fernando. «Este ano, a Pena tem muitas flores para levar a concurso», diz Nuno Oliveira. Mas não é uma camélia qualquer que vence o concurso da melhor camélia, que acontece este sábado no jardins do Palácio de Sintra. Os produtores podem ter cameleiras perfeitas, mas é preciso escolher a mais perfeita camélia da mais perfeita cameleira. Todas as flores concorrentes estão em exposição até domingo, num passeio sobre pétalas que vale a pena. Se viver mais a Norte, a Oficina da Natureza organiza passeios a Guimarães, onde podem ver-se das mais bonitas e antigas cameleiras de Portugal. O próximo é a 24 e 25 de Março ( www.oficinadanatureza.pt ). 

Se tiver ficado com vontade de as plantar, saiba que ainda o pode fazer este mês. Joana Guedes deixa as recomendações principais: deve escolher-se um local com luz moderada, protegido do vento frio, o solo deve ser ácido, podendo usar-se uma mistura especial para camélias e não se deve usar adubo em demasia. Por último, devem ser regadas no Verão e também durante a floração no Inverno, sobretudo as plantas jovens ou recentemente plantadas.

joana.andrade@sol.pt

http://sol.sapo.pt/inicio/Vida/Interior.aspx?content_id=44269