Wednesday, 28 November 2012

RELAÇÃO RECUSA RECURSO DA ONGOING



Nuno Vasconcellos, líder do grupo Ongoing, viu o Tribunal da Relação recusar o recurso que apresentou ao processo contra a Impresa

Processo contra Impresa

Relação recusa recurso da Ongoing


O Tribunal da Relação de Lisboa decidiu "não tomar conhecimento" do recurso interposto pela Ongoing após o indeferimento da providência cautelar que visava a suspensão das deliberações da assembleia-geral da Impresa em 2011.

Em deliberação datada do dia 15, e a que a agência Lusa teve acesso, o Tribunal da Relação justifica a decisão com a o facto de as conclusões formuladas pela Ongoing para sustentar o recurso estarem "longe de satisfazer aquilo que a jurisprudência entende que deve ser levado às conclusões", dada a sua "prolixidade, extensão e, sobretudo, repetitividade". Na deliberação, o tribunal recorda que, face às "252 massivas conclusões" apresentadas pela Ongoing para sustentar o recurso, foi solicitado à empresa, por despacho de 1 de Outubro passado, que formulasse "novas conclusões, sintéticas e claras".

Contudo, sustenta, "a reformulação feita foi uma simples alteração de forma, sem influência no conteúdo válido das conclusões", tendo-se limitado a eliminar 99 proposições e a fazer "nova arrumação numérica e ligeiras alterações de redacção", sem fazer a "sintetização das motivações, que era o que se pretendia".

A agência Lusa tentou obter reacções à decisão do tribunal por parte da Impresa e da Ongoing, mas fonte oficial da primeira não quis comentar e, até ao momento, não foi possível contactar a empresa de Nuno Vasconcellos.

O recurso da Ongoing surgiu na sequência da decisão do Tribunal do Comércio de Lisboa que considerou improcedente a providência cautelar interposta por aquela empresa com vista à suspensão das deliberações da assembleia geral do grupo de media Impresa em Abril de 2011.

Nessa reunião magna da Impresa, em que Francisco Balsemão foi reeleito presidente do Conselho de Administração (CA), a Ongoing falhou a tentativa de integrar o CA da empresa. Em sequência, a Ongoing decidiu recorrer aos meios judiciais para impugnar as deliberações da assembleia. "O grupo Ongoing vê-se compelido a participar às autoridades reguladoras do mercado tais factos e a recorrer aos meios judiciais para conseguir exercer os seus direitos de accionista minoritário e impedir a continuação de uma gestão não transparente e não participada e não controlada por minoritários numa sociedade aberta e cotada", anunciou em comunicado a 19 de Abril o grupo liderado por Nuno Vasconcelos, que detém 23% da Impresa.

De acordo com a sentença citada pela Impresa, o tribunal decidiu "não suspender a execução das deliberações sociais adoptadas no âmbito da referida assembleia-geral relativas, respectivamente, à aprovação de contas de 2010, à utilização da reserva de prémio de emissão para cobertura de resultados transitados, à aplicação de resultados e à eleição dos corpos sociais para o quadriénio 2011/2014".

A empresa de Balsemão acrescenta que o tribunal fundamentou a sua decisão no facto de a Ongoing "não ter direito de acesso à informação solicitada, concretamente aos estudos de avaliação que serviram de base ao registo contabilístico do 'goodwill' nas contas de 2010, para além de não ter ficado demonstrado qualquer dano, para as requerentes ou para a Impresa, decorrente da execução das deliberações em causa".

Por se tratar de uma decisão de primeira instância, a Ongoing recorreu da sentença, tendo agora visto recusado o recurso.

Desde o início da "guerra" instalada entre a Ongoing e a Impresa, o grupo de Balsemão viu já ser-lhe dada razão por quatro decisões judiciais e uma da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

Por decidir está ainda o último processo movido pela Ongoing e que diz respeito à eleição de um administrador no Conselho de Administração da Impresa.

Wednesday, 14 November 2012

UNIVERSIDADE LUSÍADA OBRIGADA A INDEMNIZAR FAMÍLIA DE ALUNO QUE MORREU APÓS A PRAXE


A Relação do Porto confirmou uma decisão do tribunal de Famalicão que obriga a Universidade Lusíada a indemnizar os pais de um aluno que morreu após ser submetido a uma praxe, disse hoje fonte ligada ao processo.

Em acórdão datado de quinta-feira, que a agência Lusa consultou hoje, a secção cível da Relação do Porto julga improcedente uma apelação da universidade, confirmando a sentença recorrida, que condena a ré a pagar mais de 90 mil euros aos familiares de Diogo Macedo.

A vítima frequentava o 4.º ano de Arquitectura do pólo de Famalicão da Universidade Lusíada e era ‘tuninho’ (membro de categoria inferior) na tuna daquele estabelecimento de ensino superior. Diogo sentiu-se indisposto após ser praxado, numa noite de ensaios da tuna, em 08 de Outubro de 2001 e foi conduzido ao hospital de Famalicão, sendo transferido para o hospital de S. João, no Porto, onde veio a morrer sete dias depois.

«Sofreu agressões pelo menos na nuca e pescoço, que aconteceram quando este se encontrava na companhia dos colegas da tuna, no interior da universidade. A morte foi consequência adequada, directa e necessária dos actos violentos», concluiu a família, nos quesitos do processo cível intentado contra a universidade.

«Se a ré controlasse as práticas praxistas dentro das suas instalações, impedisse que a agressividade física e psicológica dominasse (?) teria contribuído para que a morte não ocorresse», assinalou ainda a família.

A autópsia revelou que Diogo morreu devido a lesões traumáticas cranioencefálicas e cervicais. A universidade alegou que o óbito «não se ficou a dever a qualquer agressão, nem à violação do dever de vigilância sobre a tuna académica».

Um processo-crime relacionado com a morte de Diogo foi arquivado pelo Ministério Público de Famalicão.

Lusa/SOL

Tuesday, 13 November 2012

JUIZ AMEAÇA RENATO DE EXPULSÃO DO TRIBUNAL



O juiz do julgamento do caso Carlos Castro, em Nova Iorque, Daniel Fitzgerald, ameaçou hoje expulsar do tribunal o arguido, Renato Seabra, caso este volte a falar alto durante o julgamento, na presença dos jurados.

"Se falar enquanto os jurados estão na sala, vou retirá-lo do tribunal", avisou Fitzgerald na sessão de hoje do julgamento pelo homicídio do cronista social, a primeira depois de uma interrupção de duas semanas. Confrontado com o aviso, Seabra começou por rir-se, parando imediatamente depois de avisado pelo juiz para se conter, pois não havia "nenhum motivo para rir". "Quero que participe no tribunal. Contudo, as regras dizem que se continua a falar quando não é suposto, então tenho de escusá-lo do tribunal". O incidente terá ocorrido no final da última sessão, mas nem a defesa nem a procuradoria quiseram esclarecer o assunto.

No banco das testemunhas voltou hoje a estar William Barr, psicólogo chamado pela acusação de Renato Seabra, que rejeita a tese da defesa de que o jovem não teve consciência dos seus atos no crime de 07 de janeiro de 2011, devido a perturbações mentais.

Relatórios de médicos que avaliaram o jovem em três unidades psiquiátricas, referem que, na altura do crime, o jovem "estava em pensamento delirante, num episódio maníaco e desordem bipolar, com caraterísticas psicóticas graves" e, como tal, não deve ser considerado culpado. Apontam ainda para a natureza brutal das agressões, incluindo mutilações genitais da vítima, como prova de que Seabra estava sob efeito de uma psicose, tal como o facto de ter relatado a dois psicólogos ter obedecido "a vozes" dentro da sua cabeça, nomeadamente durante a mutilação. Seabra disse ainda que as "vozes" o levaram a acreditar que matar e mutilar Castro lhe daria poderes para curar as outras pessoas.

Diretor de neuropsicologia na New York University, William Barr não dá credibilidade a este relato e defendeu mesmo que o jovem mentiu e tem estado a "improvisar" à medida que o tempo passa. "Muito no seu comportamento soa a psicótico, muito soa a inventado. Mas não interferiu com a capacidade deste homem saber que as suas ações eram erradas", disse o especialista. "O que sabemos sobre homicídios, seja por pessoas sob efeito de psicose ou não, é que é muito mais provável [o crime] acontecer como resultado de raiva, impulso, cólera", adiantou. Questionado pelo advogado de defesa se Seabra "mentiu a toda a gente", Barr respondeu "basicamente, sim", incluindo "provavelmente" à Polícia.

O neuropsicólogo admitiu que Seabra tenha entrado em estado de psicose, mas só depois de cometer o crime. Na sessão anterior, Barr disse que Seabra fugiu conscientemente do local do homicídio de Carlos Castro e que exagerou na descrição do crime para "parecer louco".
No início de 2012, Barr diagnosticou a Seabra "distúrbios emocionais com traços psicóticos em remissão total", após seis horas de entrevista pessoal e de rever os registos dos diferentes médicos que o avaliaram, além de provas do crime.


Monday, 12 November 2012

ENTREVISTA A FRANCISCO NICHOLSON




Francisco Nicholson está a recuperar da operação cirúrgica a que foi submetido para transplante de fígado. É o segundo que faz, sob a coordenação do Doutor Eduardo Barroso

Entrevista a Francisco Nicholson, temporariamente afastado do trabalho por causa do segundo transplante ao fígado “Não me posso queixar da vida” (COM VÍDEO) A recuperar do segundo transplante ao fígado, o actor, encenador e autor fala sobre a carreira, a família e a doença que quer ultrapassar rapidamente. Em cena no Teatro Maria Vitória, no Parque Mayer, está a sua mais recente criação, 'Vai de Em@ail a Pior'.

 Correio da Manhã - Com uma família ligada às artes, para si não constituiu surpresa o facto de ter sido artista...

 Francisco Nicholson - Vamos lá a ver... Fala-se agora muito do meu bisavô, o Quintela, que também é bisavô do José Diogo, a verdade é que eu não tinha ligação com esse mundo. Tanto que quando decidi ir para o teatro os meus pais contrariaram-me. Decidi que queria fazer teatro aos 14 anos, quando estudava no Liceu Camões e comecei a trabalhar com o António Manuel Couto Viana, o ensaiador da Mocidade Portuguesa - que depois fez o Teatro do Gerifalto e a Companhia Nacional de Teatro, e por onde muitos de nós começámos, como o Rui Mendes, o Morais e Castro... Comecei no Teatro da Mocidade Portuguesa. Os meus pais disseram-me: "És actor quando atingires a maioridade. Até lá, nós não autorizamos!" Daí que eu fosse tirar um curso rápido, que tinha a ver comigo porque gosto muito de mar. Fui para a Marinha Mercante. Andei embarcado até aos 21 anos, quando atingi a maioridade. Com aquilo que tinha amealhado, fui tirar um curso em Paris.

 - Na Academia Charles Dullin...

 - Sim. - Não fez o Conservatório? - Essa é outra história. O meu pai faleceu, houve uma série de problemas na minha vida e eu voltei a Portugal. Voltei e resolvi ir para o Conservatório porque havia muitos actores - grandes actores - que nos serviam de trampolim e nos levavam para as companhias. E assim foi. Fui para o Conservatório e estive lá três meses. Ao fim desse tempo fui expulso. Ou melhor, fui suspenso por três anos.

 - Por que motivo?

 - Um quid pro quo com uma colega minha. Fiz uma piada de mau gosto, uma brejeirice, porque tinha muita confiança com ela, e nessa altura fui alvo de um inquérito terrível. A menina era filha de uma alta patente das forças armadas e de uma senhora muito fina e ela resolveu contar a situação que se tinha passado comigo como se fosse uma coisa muito engraçada. Ela própria achou muita graça - mas o pai não achou graça nenhuma. O pai era um conservador e foi ao Conservatório falar com o director. Achei aquilo tudo muito ridículo, porque não ligava nenhuma a esse tipo de coisas. O Conservatório era tão ridículo que nós, rapazes, éramos obrigados a ir de gravata para as aulas - em Paris íamos de qualquer maneira, era preciso era ir e fazer - e as meninas tinham de levar meias de seda. Não podiam ir de pernas nuas. Saí do Conservatório e nunca mais voltei.

 - Mas nunca lhe fez falta?

 - Para nada. Entretanto fui falar com o Couto Viana, que me contratou para o Gerifalto. E nunca mais parei. 

 - Estreou-se no Teatro do Gerifalto numa peça escrita por si. Estreou-se na dupla condição de actor e autor...

 - Exactamente. Ele tinha-me metido no Gerifalto como ponto. Disse-me que gostava muito de me contratar, mas que não tinha dinheiro e que precisava era de um ponto. Na altura ainda havia aquelas caixas, onde os pontos se colocavam... Eu queria era entrar. E quando fomos para a leitura da próxima peça, eles não gostaram nada. Acharam que era uma chatice. Eu, que era um puto desenrascado e com uma grande lata, disse-lhes que em 24 horas fazia melhor do que aquilo. O Couto Viana disse que me dava uma semana. "Vais para casa, e daqui a uma semana voltas." Não foi uma semana, foram 48 horas. Escrevi, escrevi, escrevi. Acharam muita graça ao texto, riram-se muito e foi a peça que abriu a temporada. Chamava-se ‘Misterioso Até Mais Não'.

 - Percebeu desde logo que ia também enveredar pela escrita? 

 - Sim, porque eu já escrevia. Comecei a escrever aos 14, 15 anos. Tentativas de peças, de sketches... Sempre gostei muito de escrever. 

 - Mas se não houve tradição antes, há tradição agora. A Sofia [Nicholson] seguiu-lhes o exemplo... 

 - É. E a tradição manteve-se de uma maneira que até me divirto com ela. Porque eu também não queria que ela fosse actriz!

 - É com alegria ou com preocupação que se recebe a notícia de que um filho quer ser actor? 

 - A vida de um artista é problemática. Eu costumo dizer que é feita de euforias breves e de angústias longas. Estamos sempre contratados a prazo - agora com a televisão é que há contratos mais longos, mas também acabam rapidamente. Estamos susceptíveis a tudo: se chove, se faz sol, se há crise, se não há crise. É complicado. Claro que eu não tenho razão de queixa. Desde que comecei nunca mais parei de trabalhar - só quando adoeci. A Sofia estava na Air France, desempenhando muito bem o seu papel, quando me anunciou que queria ser actriz, e naturalmente fiquei preocupado. Não a proibi - nem pouco mais ou menos - mas se calhar não lhe dei o apoio que ela merecia. Ela foi por aí fora e hoje está firme e é uma excelente actriz. Sou pai mas sou isento, e reconheço os méritos da Sofia.

 - E o neto, Hugo, já manifestou algum interesse pelo teatro?

 - Já fez um curso de teatro. Com 12 anos. E acho que vai entrar numa telenovela, com um papel pequenino... E tenho também um neto, que não é bem meu neto, é filho do meu enteado, mas é como se fosse meu neto, e que vai entrar na Escola Profissional de Teatro de Cascais, do Carlos Avilez.

 - Vê-se mais como autor, actor ou encenador? 

 - Gosto das três vertentes do trabalho. Gosto muito de escrever, gosto de representar - se o papel me agrada - e gosto de dirigir, principalmente gente nova. Agora tenho dirigido grandes actores.

 - Ao longo da sua carreira passou por grandes companhias de teatro. A Companhia Nacional de Teatro, o Gerifalto, o Teatro Estúdio de Lisboa. Inaugurou o Teatro Villaret com o Raul Solnado... Tem noção de que faz parte da história do teatro português?

 - Se calhar faço, mas não tenho grande noção disso. Tenho mais de 50 anos de carreira e realmente passei por tudo isso. Ainda criei o Adoque. Fiz teatro de revista com as jovens estreantes Ivone Silva, Manuela Maria, Irene Cruz e Henriqueta Maia... Escrevi e dirigi essa companhia...

 - De todas as pessoas com quem trabalhou, há alguma que recorda com mais carinho?

 - Muitas. O Armando Cortez, antes de todos, o meu compadre (é padrinho da Sofia), com quem fiz o programa de televisão ‘Riso e Ritmo'. Era como um irmão. O Solnado. O Nicolau [Breyner]... E o Eugénio Pepe, outro irmão, o primeiro compositor com quem colaborei. As minhas primeiras letras, foram para músicas dele. Eu era um principiante, ele um profissional reputado. Foi fantástico. Há muitas pessoas... O Henrique Santana, a seguir, um encontro inesperado mas muito frutuoso. Eu estava no Adoque, uma companhia considerada de esquerda, e ele no Maria Vitória, de direita. O Hélder Freire Costa sonhou juntar as duas - o que surpreendeu toda a gente. Achavam que nós nos detestávamos. Eu tinha imensa admiração por ele e acho que ele também tinha por mim. De forma que depois de muitas reuniões, quase secretas, quando fui a casa dele, para conversarmos, de cada vez que passava por um objecto - um jarrão, uma terrina - ele dizia-me: "Cuidado. Não deixes cair!" Perguntei-lhe: o que é que se passa? "Nada", disse ele. "Mas se eles lá foram ouvem algum barulho pensam que somos nós a andar à pancada."

 - A carreira de letrista também tem sido admirável - escreveu cerca de 300 letras de canções. Acha que as pessoas sabem que escreveu a célebre ‘Oração' para o António Calvário?

 - Algumas saberão. Outras não. A canção, tendo sido um desastre na Eurovisão, foi um sucesso cá - e continua a ser. O António continua a cantá-la em todos os espectáculos a que vai. Mas também se não souberem, não é importante. Às vezes nem eu me lembro que a canção que estou a ouvir foi escrita por mim. - Ganhou três vezes as Marchas de Lisboa. Isso também é importante para si?

 - Fi-las por acaso, mas foi importante tê-las feito. Sempre em colaboração, claro. Faz parte da tradição, é uma coisa que está agarrada a Lisboa. - Parte da sua carreira foi feita antes do 25 de Abril. Sentia-se constrangido?

 - Sempre. Havia a censura. No teatro, não havia quem não sonhasse, não digo com o 25 de Abril, mas com qualquer coisa que acabasse com a censura. Porque era um constrangimento muito grande. - Quando a revolução chegou, estava no Teatro ABC, a fazer a revista ‘Tudo a Nu', de que era autor, encenador e actor. Teve noção de que naquele momento tinha mudado tudo? - Sim. Viemos para a rua, houve histórias engraçadíssimas. Havia uma grande ingenuidade, uma grande vontade, um grande voluntarismo. O que levou a situações cómicas. Mas foi inesquecível. E então o 1º de Maio, a seguir ao 25 de Abril foi maravilhoso.

 - Logo a seguir funda o Teatro Adoque, companhia de revista à portuguesa, onde se lançaram a Ana Bola, a Helena Isabel, Virgílio Castelo, António Feio...

 - O José Raposo e muitos mais...

 - A revista é, para si, um género teatral maior?

 - Considero a revista à portuguesa um género extremamente importante. É um formato que se identifica muito com o nosso povo, um espectáculo eminentemente popular e eu tive provas disso logo a seguir ao 25 de Abril, quando muitos estrangeiros vieram a Portugal - grandes encenadores - para tentar perceber o que isto era. Iam ao Adoque e saiam de lá maravilhados. Inclusivamente o director do Berliner Ensemble. Na altura fazia-se muito Brecht. O entusiasmo dele encheu-nos de orgulho. Éramos muito voluntaristas, estávamos atrás de sonhos e ideais que infelizmente não se concretizaram, mas na altura acreditávamos. E um testemunho de uma pessoa daquelas, que praticava teatro político, teve para nós uma importância fundamental.

 - Entretanto, a televisão também tinha aparecido, e esse novo veículo tornou-o muito popular. Programas como o ‘Riso & Ritmo' e, posteriormente, ‘Canto Alegre' tornaram-no uma figura pública. Foi importante para si?

 - Adoro fazer televisão. O ‘Riso e Ritmo' foi um formato perfeitamente inovador e ainda hoje gente que o vê diz que era um programa que estava muito à frente. E era feito pelos gloriosos malucos das máquinas de televisão. O Armando Cortez (foi aí que se solidificou a nossa amizade), o Luís Andrade, um realizador todo para a frente... Era uma equipa divertida que gozava de uma liberdade muito grande e passaram-se coisas muito engraçadas. Acabou, abruptamente. Pedimos a uma colega para levar o inspector da censura a beber um café enquanto gravávamos um sketch sobre o Pai Natal em que um operário põe uma meia na chaminé, mas a meia tem um buraco. O mestre de obras põe uma botifarra em baixo e enche a botifarra toda. Aquilo foi para o ar e o tipo ia tendo uma apoplexia. Nunca mais houve ‘Riso e Ritmo'.

 - Vida cheia, muito trabalho. Sente que tem o reconhecimento devido por tudo o que fez? 

 - Não fiz nada para ser reconhecido. Fiz por amor. Não fiz nada à espera de reconhecimento, mas tenho tido algum. Recebi a Medalha de Mérito da Cidade de Lisboa, tive um prémio muito pitoresco - o Prémio Beatriz Costa - que muito me honrou. São coisas gratificantes, mas não foi para isso que fui para actor. Foi para ir fazendo, para construir qualquer coisa. E acho que tenho ajudado a construir muita coisa. Imodestamente.

 - É uma pessoa realizada?

 - Sim. Não me posso queixar da vida. - A não ser desse problema de saúde... - O transplante, sim. O doutor Eduardo Barroso e Manuela Morbey chamaram-me há dois meses e aconselharam-me, em função dos exames que fiz, a fazer um novo transplante. Eu, pela admiração e pela consideração que tenho por eles, disse logo que sim. Mas sou um optimista por natureza e espero que isto se resolva pelo melhor. Sei que estou em boas mãos.

 - Nesta fase, a Magda, com quem já se casou duas vezes, tem sido uma companhia imprescindível?

 - Se calhar volto a casar-me uma terceira vez, logo que isto passe... A Magda é uma companheira excepcional, para além de ser uma mulher extraordinária. É uma artista, bailarina com vários prémios, coreógrafa, cenógrafa, figurinista... Actriz, que entrou em várias novelas e programas de humor. É, para além disso, uma companheira única. Não tenho a certeza de merecer uma pessoa assim. Reconheço que tinha uma vida muito agitada, era um boémio militante, eu e colegas do teatro - o que aliás me ajudou a dar cabo do fígado - e depois encontrei a Magda e foi realmente uma coisa muito boa para a minha vida. Tem-me ajudado imenso nesta fase e ela tem sofrido imenso com tudo isto. E tenho a minha filha, os meus enteados, a minha família e os meus amigos. Têm sido um grande apoio. É muito bom ter amigos e família. Torna as coisas mais simples. Mais justificadas. Justifica lutarmos para estarmos vivos.

 - E continua a escrever?

 - Continuo. Já tenho uma série de rábulas escritas para uma hipotética revista para a qual espero vir a ser convidado. Não sei se o Hélder Freire Costa me convida, mas logo se vê.

 - A vida só acaba quando acaba?

 - É é. A vida é para ser vivida, não morrida.

HUMOR COM HUMOR SE PAGA