Sunday, 19 January 2014

TRAGÉDIA DO MECO: PACTO DE SILÊNCIO

 
Meco: Jovens sabiam que "iam entrar na água"
 
Sob anonimato, um jovem colega dos seis estudantes da Lusófona que perderam a vida na praia do Meco, em Sesimbra, revelou ao Jornal de Notícias, que “eles sabiam que” naquela noite “iam entrar na água”. Por isso, acrescenta, “deixaram os telemóveis em casa”. Esta ação faria, segundo o mesmo testemunho, parte de um ritual de praxe liderado pelo único sobrevivente.
 
“É normal este tipo de rituais. Sei lá: saltar ondinhas. Lá [na Lusófona], sabemos, que o João contou que foi isso que fizeram”, acrescenta a mesma fonte, referindo ter sido essa a razão que os levou a deixar "os telemóveis em casa".
 
De acordo com o Jornal de Notícias (JN) de hoje, a jovem foi interrompida nas declarações que proferia por dois colegas, quando estes perceberam que estava a quebrar ‘o pacto de silêncio’ que impera entre os estudantes.
 
O único sobrevivente, João Gouveia de 23 anos, seria o líder deste ritual de praxe e, por isso, o único que tinha consigo o telemóvel. Entretanto, revela o JN, foi destituído de ‘Dux’ da Comissão de Praxes da Lusófona.
 
Depois da missa campal no local da tragédia, na praia do Meco, a familiar de uma das vítimas, em declarações ao jornalistas, apelou a que o jovem que sobreviveu conte o que aconteceu naquela noite seja “através de um psicólogo, um advogado, ou da comunicação social”.
 
 

Saturday, 18 January 2014

BULLYING: O SUICÍDIO DO NELSON

 

"A escola achou que eram coisas de canalha"

 Publicado em 2014-01-15
EMÍLIA MONTEIRO
 
 "A escola vai ficar mal neste filme", disse ao JN o padre José Costa, pároco de Adaúfe, a freguesia onde Nélson Antunes vivia com a família. "Alguns colegas da escola alertaram para o facto do Nélson ser constantemente maltratado por um grupo de jovens", afirmou o sacerdote. "Sei que foram dados sinais de alerta e que a escola não os terá valorizado. Ele não se queixava, resignava-se mas alguns colegas revoltaram-se com a situação e falaram com professores e responsáveis da escola mas, pelos vistos, a escola achou que eram coisas de canalha e não ligou", disse o pároco de Adaúfe.
 
 José Costa conhecia bem o jovem de 15 anos. Foi ele que o batizou e foi em Adaúfe que frequentou a catequese até ao sexto ano. Foi também o padre José Costa que esta terça-feira lhe fez o funeral e, na curta homilia, disse às mais de 100 pessoas presentes na missa que o jovem tinha deixado a comunidade "em condições inquietantes".
 
 "Cada um que pense no que pode ter causado esta situação e esta morte. Não para julgar mas para evitar outros casos", referiu.
 
 Jovem de poucas palavras
 
 Nélson vivia com a mãe, um irmão mais novo e uma meia-irmã, mais velha. O pai era emigrante mas ainda estava em Braga a passar férias. De poucas palavras, o jovem contou à família (e os amigos confirmaram) que, há dias, num intervalo, um grupo de colegas o tinha despido num intervalo. "Ele ficou em cuecas, apanhou a roupa, vestiu-se e foi para as aulas sem dizer nada", recordou um colega de turma que relatou, posteriormente, a situação a um professor.
 
 Com os telemóveis e o seu misterioso desaparecimento, o silêncio reinava. "Ele dizia que os perdia mas toda a gente sabia que alguém os roubava", frisou outro colega presente ontem à tarde no funeral.
 
 Na Escola EB 2/3 de Palmeira, o jovem recebia acompanhamento psicológico para o ajudar "nos problemas de falta de atenção" que foram sinalizados nas aulas. "O Nélson era um rapaz diferente, que não reagia às piadas que faziam sobre ele e que não se interessava muito pelas aulas", disse ao JN uma docente da escola coordenada por Fausto Farinha, antigo responsável da Direção Regional de Educação do Norte (DREN).