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Monday, 9 April 2012

EX-ALUNO DA CASA PIA CONFESSA QUE MENTIU


Hoje com 30 anos, Pedro Lemos cresceu com Ricardo Oliveira no mesmo lar da Casa Pia. À semelhança de todas as vítimas que durante décadas foram abusadas na instituição, com apenas sete anos já fazia parte do vasto leque de menores nas mãos de Carlos Silvino, que este seleccionava para passar a outros predadores de crianças.

Foi, à semelhança do amigo, abusado na colónia de férias da Casa Pia em Colares e mais tarde numa casa no Campo Grande. Além de alguns funcionários da instituição, denunciou Carlos Cruz e o embaixador Jorge Ritto.

Também manteve a mesma versão durante os 10 anos em que o processo correu nos tribunais. Vive no Algarve, sempre trabalhou ligado à restauração, mas há um ano ficou desempregado. Caiu na tentação do dinheiro fácil e deu entrevistas onde ilibou os arguidos. A mando de Carlos Tomás, com Ricardo e Ilídio perseguiu outras testemunhas (como Francisco Guerra) com o objectivo de as aliciar para também mudarem de versão.

Para dar a entrevista ao Carlos Tomás, o Ricardo diz que lhe foi prometido dinheiro para mentir. Foi assim?

Sim, o Carlos Tomás disse-me para livrar os arguidos e para dizer que era tudo mentira o que disse no processo. Disse-me para falar sobretudo do Carlos Cruz, que era tudo mentira, e que tinha sido ameaçado pelo procurador para o acusar. Depois, a entrevista fiz à minha maneira. Eu sabia o que ele queria e construí a minha mentira.

Quem é o procurador?

O João Aibéo [procurador no julgamento].

O que é que ele lhe disse para dizer em relação a João Aibéo?

Que eu tinha sido ameaçado por ele, se não dissesse o que ele queria. Isso é que foi tudo um jogo, foi tudo uma mentira. O que eu disse em tribunal é tudo verdade. Entretanto, ele disse que me pagava esse valor e eu estava apertado… A única coisa que eu falei, quando me perguntaram sobre quem tinha acusado na sala de audiências, disse que acusei todos mas não conhecia ninguém.

O Ricardo diz também que Carlos Tomás vos comprava com drogas.

É verdade, sim. Ele é que ia comprar a droga.

Que tipo de droga?

Branca, cocaína.

E o que aconteceu com Francisco Guerra?

Estivemos no trabalho dele. Levámos o telemóvel do Carlos Tomás para gravar e para ver se ele também dizia que era mentira. Mas ele disse que não e que já tinha feito as suas declarações no processo. Ele também não sabia que nós tínhamos o telefone escondido, não é? Mas o Tomás queria mesmo apanhar o Francisco para ver se o conseguia comprar, já que não tinha conseguido dar-lhe a volta.

Está desempregado há quanto tempo?

Há um ano. Estou mesmo na porcaria, vou ser sincero, vou ter que começar de baixo.

Tem família?

O problema é esse. Tenho dois filhos e não sei o que hei-de fazer mais à minha vida.

Qual foi o impacto dessa entrevista na sua vida?

Foi tão mau, tão mau, que nem dá para explicar. Recebi mensagens de pessoas, amigos de infância, que até me dá vontade de chorar. Olhe, eu já não me conheço desde que fiz isso.

Também assinou um documento a pedir para ser ouvido e repor a verdade?

Não assinei nada. Ele falou-me nisso e eu disse «para a semana eu passo cá», mas era treta. Nunca mais fui a Lisboa.

Saturday, 7 April 2012

CASA PIA: RICARDO UMA VIDA DE SEXO E DROGAS


Casa Pia: Ricardo, uma vida de abuso e drogas 

A droga com a qual Ricardo Oliveira diz ter sido comprado é afinal um parente antigo na sua vida. Filho de uma prostituta presa à heroína, nasceu a ressacar. Cresceu entre amas e tascos, e dormia nos carros dos proxenetas até a mãe, Ana Oliveira, já pela manhã, abandonar as ruas.

Em 1988, com apenas cinco anos, uma ama com pena do menino consegue interná-lo na Casa Pia, onde a sua sorte acabaria por mudar, mas para pior. Passados três anos de internamento na instituição do Estado, é o próprio corpo, que deixara de controlar, a revelar os abusos de que vinha sendo alvo por parte do funcionário Carlos Silvino. Passa a esconder a roupa interior ou, como a vergonha lhe paralisava a palavra, para chamar a atenção, a atirar as fezes contra as paredes.

Quando a mãe morre de overdose , já Ricardo mudara das mãos de Silvino para outras mais ilustres. Passa a frequentar casas onde é abusado por homens como Carlos Cruz e o embaixador Jorge Ritto, que o estrearam nas drogas.

A sua vida foi uma montanha russa. Não tinha mais de 10 anos quando, com outros colegas da Casa Pia, entrou na indústria da pornografia infantil. Jean Manuel Vuillaume, pedófilo francês ligado a uma rede internacional, conhecida por ‘Toro Bravo’, que viria a ser desmantelada em 1994 pelas autoridades francesas e que já era referenciado em Portugal pelos Serviços de Informações de Segurança (SIS), tinha carta branca para entrar nas instalações da Casa Pia. Ricardo e Nuno Miguel, outro casapiano, rodaram durante cinco anos uma série de oito vídeos intitulada ‘Paradis Naturiste’, um deles numa das colónias de férias da instituição, em Colares. Os meninos tornaram-se populares na Gaie France Magazine , revista ligada à rede pedófila, onde se publicitavam os filmes.

O universo lúdico da infância sempre foi estranho a Ricardo. Cresceu entre drogas e com os bolsos cheios de dinheiro – até que passou a adolescência, perdeu o corpo infantil e deixou de despertar cobiça. Estava sozinho, tinha apenas a droga como companheira, e daí a prostituir-se no Parque Eduardo VII, em Lisboa, para conseguir dinheiro, foi um passo. Aos 18 anos, saiu da Casa Pia com o curso de Cozinha e Pastelaria terminado. Encontrou emprego num hotel e decidiu mudar de percurso.

Quando o escândalo rebentou, em 2003, estava a endireitar a vida e afastado das drogas. Tornou-se uma das testemunhas do caso Casa Pia e durante os longos dez anos em que o processo correu nos tribunais manteve a mesma versão. Viveu-o com altos e baixos, mas o reencontro com o passado fê-lo várias vezes voltar ao consumo de drogas. Esteve em várias clínicas, mas não conseguiu acabar um tratamento.



 por Felícia Cabrita


5 de Abril de 2012


http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=46082

Friday, 6 April 2012

CASA PIA: CONVERSA ENTRE O JORNALISTA CARLOS TOMÁS E UM EX-ALUNO


Casa Pia: Ex-alunos pagos para mudar testemunhos

Duas das vítimas do processo Casa Pia que a defesa dos arguidos invocou, no ano passado, para tentar demonstrar que o processo não teria passado de uma montagem colectiva de antigos alunos da instituição admitiram ao SOL que mentiram a troco de dinheiro e droga.

Os arguidos, já condenados pelas Varas Criminais de Lisboa, haviam requerido, na fase de recurso da sentença para o Tribunal da Relação, a junção ao processo de entrevistas dadas por estas duas testemunhas ao jornalista freelancer Carlos Tomás – o que foi recusado pelos magistrados.

Uma dessas vítimas, Ricardo Oliveira, hoje com 30 anos, que acusou os arguidos Carlos Cruz e Jorge Ritto, entre outros, diz agora querer «voltar a viver de rosto erguido». E revela que Carlos Tomás – que também entrevistou Carlos Silvino (o único a admitir os crimes de pedofilia com rapazes da Casa Pia) e outras duas vítimas, para desmentirem tudo o que tinham dito durante o processo – estaria a ser «pago» pelo ex-apresentador de televisão e outros arguidos.

Mas as acusações vão mais longe: Ricardo sustenta que foi o próprio advogado de Cruz, Ricardo Sá Fernandes, quem, num telefonema para Carlos Tomás no dia da entrevista, terá industriado o jornalista sobre as matérias que o jovem teria de referir.

Em apoio ao que afirma, a testemunha da Casa Pia gravou um telefonema com Tomás: a pretexto de lhe pedir dinheiro, perguntou-lhe se ainda mantinha contacto com os arguidos, ao que o jornalista respondeu: «Nunca mais falaram comigo. Nem ele [Carlos Cruz], nem o [médico Ferreira] Diniz, nem o [ex-vice-provedor adjunto da Casa Pia, Manuel] Abrantes. Depois do acórdão, nunca mais falaram comigo. Eu até estou admirado, porque se houver a repetição do julgamento eles vão precisar de vocês».

Contactado pelo SOL, Sá Fernandes refuta as acusações: «Só soube da entrevista do Ricardo Oliveira depois de ela ter sido dada. E não acredito que algum dos arguidos tenha pago a estas testemunhas», diz o advogado, acrescentando que espera que os jovens «sejam é novamente ouvidos em tribunal», conforme a defesa pretende, para esclarecer tudo de uma vez

Logo depois do contacto do SOL para o advogado, Ricardo Oliveira recebeu um telefonema de Carlos Tomás, a confrontá-lo com o que o jornal acabara de perguntar ao advogado de Carlos Cruz.

Por seu turno, quando contactado pelo SOL, Carlos Tomás garantiu: «É mentira, não paguei nada a ninguém. E se falo com os arguidos é no âmbito do meu trabalho de jornalista». E concluiu prometendo que vai processar o SOL.



por Felícia Cabrita


5 de Abril de 2012


http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=46033